quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Satie









 
 
Nave, asa única do anjo
na subida densa,
leva-te pela mão devagar,
passos à frente no espelho do futuro.
 
Disseste quem eras quatro vezes,
e das quatro uma quinta nascida,
última , segreda-te o segredo
da rosa ardente no beiral...
 
Mais à frente, asa do anjo
de pétalas vermelhas vestido,
diz já teres visto a beleza
da cabeça da criança acordada,
vinda do outro lado,
como dum outro poema nascida
 
Olha severa e sorri:
Não te castigarei,
mas lá de cima virão aqueles
que te dirão o que nunca ousei.
 
Que a rosa é só verdade,
só jardins prometidos,
só luz entrando pela casa,
só água da fonte
que por água tenho bebido.
 
Ainda baloiça ao vento
esse verde que tenho por amigo,
esses pinhais, esse ouro,
esse barca serena
num mar de trigo.
 
Satie, a ilha da rosa,
feito único por o ser,
nota a nota  canta o sol
do ocidente a vir nascer.

 (Cynthia Guimarães Taveira)

 

 

 

 

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Três pinturas

(Fotografia de Maria do Céu Costa)

 
 
Três pinturas de Cynthia Guimarães Taveira
 
A propósito do encontro promovido pela Ordem de Ourique (subordinado a temáticas debruçadas sobre o Futuro, a Tecnologia e a Ciência) que aconteceu no dia 12 de Maio de 2018, no Mosteiro de Santa Maria na Ajuda em Lisboa, foi-me sugerido que levasse três obras pictóricas, à minha escolha e de minha autoria e que, de alguma forma, as apresentasse ou discorresse sobre elas. Em simultâneo, nesse mês, de entre as disponíveis, outras treze obras tiveram de ser escolhidas para uma exposição patente num restaurante em Arruda dos Vinhos. Dei por mim a selecionar com cuidado aquelas que iriam para um local e as que iriam para outro. Posto isto, direcionei “As Tulipas”, “O Anjo” e “O Cisne” para a Ordem de Ourique pois entendi serem elas amostras de um percurso pessoal indissociável do pensamento e da filosofia, a par com uma “mística”, o que em rigor anda, igualmente, a par e passo com a mesma Ordem e com os propósitos pelos quais foi criada de origem: pensar e agir «portugalidade».
 
Embora não constem nas obras símbolos tipicamente portugueses, como a Cruz de Cristo ou a Esfera Armilar, ou bandeiras, ou Cordas Manuelinas, ou Caravelas, ou Barcas ou Corvos, ou ondas do mar, o que é certo é que o percurso artístico, místico e espiritual da autora não teria sido o mesmo se, desde muito cedo, por volta dos 13 anos, não tivesse havido um encontro com a Temática da Portugalidade através do poeta Fernando Pessoa, e poucos anos depois, dois ou três,  o encontro com a obra de Dalila Pereira da Costa. O que é certo é que mesmo não estando visível pelos seus símbolos comuns, essa Portugalidade está por detrás de cada obra elaborada. E quando dizemos de cada obra pictórica, dizemos todas, sem excepção. A razão disto prende-se com a paralela e, ao mesmo tempo, una, relação que existe entre a descoberta do País e a auto-descoberta pessoal. Nestes tempos “modernos” e de globalização”, Portugal torna-se caso raro nessa possibilidade dupla e harmoniosa, mantendo sempre em aberto (e contra todas as probabilidades e expectativas) a possibilidade de ser este um país verdadeiramente iniciático, com mortes e renascimentos, para quem se predisponha, com a mesma abertura que o país releva e revela a todos aqueles que escolhe (sendo o país iniciático, ele é que escolhe quem o procura…).
 
Assim, e começando pela obra “O Anjo”, duas figuras esguias, procurando por essa forma fazer a ponte entre o céu e a terra (base da identidade da espécie humana, muito mais do que um simples acrescento genético ao chimpanzé), uma humana, outra angelical (com asas visíveis), tocam-se em baixo, gerando, deste modo, o fogo. A razão pela qual esse toque aparece em baixo, e não em cima, prende-se com a Descoberta da Presença Celeste na Terra. Só assim, e não de uma forma meramente utópica ou idealista, se pode dizer que essa Descoberta existiu ou, dito de outro modo, é no coração carnal, aquele mesmo que bombeando o sangue consegue em simultâneo pensar e sentir que essa Descoberta do Transcendente se faz. Sem ele, em profunda abertura para o mundo e para o supra-mundo, nenhuma Revelação é acessível ou possível, sequer. É, aliás, a presença do corpo que nos distingue dos anjos… quando se dá essa Descoberta que, segundo as “linhagens espirituais”, pode ser tanto um encontro com o “totalmente outro”, usando os termos de Otto Rahn, como um “desdobramento do próprio ser” que assim entra em contacto com o seu lado angelical (ou centelha divina, que todos trazem consigo) ou ainda, ambos os casos ocorrendo no mesmo ser.
 
Essa descoberta ou Revelação ou ambas, geram energia ou fogo que visa sempre a transmutação. Os adjectivos desse fogo são inúmeros e dependem também de linhagem para linhagem. Falamos em linhagem pois não consideramos que a espiritualidade se prenda única e exclusivamente com “escolas”, indo muito além do pensamento teórico e filosófico devido a inúmeros factores (genético, memórias genéticas, memórias de vidas passadas – o caso de Dalila Pereira de Costa, por exemplo, história pessoal, escolhas divinas, nascimentos com missões bem estipuladas, etc…) poderem estar presentes no seu desenvolvimento e também não falamos de evolução por ser este um termo Darwinista, não permitindo a deslocação qualitativa no espaço-tempo, sendo o termo desenvolvimento mais integrador, tanto de movimentos cíclicos como escatológicos.
 
O fogo que surge é, em altura e em figura (esguia) semelhante aos dois seres que estendem a mão para o tocar e para se tocarem, quase como se fosse um terceiro ser ou coluna/sustentáculo desse mesmo desenvolvimento. Todo o diálogo se inicia deste modo, toda a transformação é possível a partir desta evidência. Cada um dos seres tem uma espécie de pregador em forma de flor, embora com cores diferentes. Cada um possui uma forma de Sabedoria específica, pétalas falantes, revelações próprias em abertura e diálogo. Vemos então que todo este misticismo se baseia em movimento e em dinâmica, qualidade da palavra Vida, sendo a Morte, como paragem ou inércia, apenas uma face da Vida.
 
De seguida temos a obra “Tulipas”. Nela uma espécie de deusa consegue o prodígio do equilibro na mais profunda assimetrias das tulipas que dela surgem. A tulipa, mesmo depois de colhida, cresce, em água, cerca de um centímetro por dia, o que, para quem faz arranjos de flores que duram vários dias, se torna candidato à pré-visão  (imaginar qual o tamanho que a tulipa terá daí a dois dias, por exemplo, e fazer um arranjo que conte com essa característica da tulipa, não estragando a harmonia do total do arranjo), torna-se, muito facilmente, para quem com flores trabalha, num símbolo ligado à capacidade visionária. É também uma flor extremamente sensível à temperatura. Abre-se muito rapidamente se retirada do frigorífico e volta a fechar-se se voltar para ele. É, portanto, uma flor com grande sensibilidade para o calor/fogo, mudando rapidamente o que também, para quem trabalha com flores, remete para o futuro local onde a flor será instalada, se ao ar livre, se não, se num local com baixa temperatura, se não o que invariavelmente compromete o efeito que a flor virá a ter quando se faz um arranjo com ela. Assim, entre o extremamente volátil no tamanho e na forma, torna-se uma flor que requer precisão e sabedoria, uma segurança adquirida com os anos. Tal como o equilíbrio dentro da assimetria, sem comprometer a harmonia, para além de ser este um espírito Barroco, requer o conhecimento endógeno de uma certa geometria sagrada e uma segurança total. Essa segurança remete naturalmente para a existência, no ser humano, de um eixo fixo, permanente, exacto que está presente na pintura, a azul: um vidro sólido que atravessa todo o ser. Só assim, é possível o que, à primeira vista, parece ser impossível, a harmonia dentro da aparente desarmonia com que as tulipas surgem. E surgem em movimento (embora estáticas em pintura – a pintura não é cinema), ou seja, a ideia com que se fica é que estas sete túlipas se movem, se transformam em torno de um eixo, o motor Imóvel da Tradição, sendo em número de sete, “o ciclo completo, a perfeição dinâmica” (em movimento), tal como está na entrada para a palavra “Sete” no Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant. O ouro que rodeia a figura, é, por si mesmo, um símbolo de realeza… a rosa central prende-se com a Sabedoria, naturalmente. Ou seja, no centro do centro, está a Sabedoria.
 
Por fim, temos a obra “O Cisne”, que nos aparece por entre flores, quase como uma parede, obrigando-nos a fazer com o olhar a separação entre dois planos: aquele que está mais perto de nós, e esse outro, o do cisne dominado, digamos assim, por uma figura humana. Mas se olharmos melhor, e podemos começar a análise por aí, o sol e a lua estão presentes. Aliás, dois sois e uma lua estão presentes como verdadeiro pano de fundo. Um dos sóis é claro, outro escuro e a lua é azulada… o mundo crepuscular, onde céu e terra se fundem, visão difusa por entre as ramagens com flores (rosas). O cisne como o que consegue não sentir nem frio nem calor, uma certa pureza inocente nas suas alvas penas, cuja curvatura do pescoço é suave e o seu deslizar pelas águas turbulentas do mundo mais suave e sereno ainda… o local, por excelência, onde se descobre que o sol é negro e que o verdadeiro sol é interior ou anterior à criação deste mundo turbulento a partir da volatilidade das águas, turbulentas e instáveis, às quais se sobrepõe o cisne deslizante, quase imperturbável na sua forma externa… um paraíso acessível. Talvez até demasiado acessível… Se assim o é, porque é que a figura o “domina” de alguma forma? Por vontade dupla de se fundir com ele e de o transcender, de estar para além dele (mundo crepuscular, lembro, onde os opostos convivem em fusão – o Regime Nocturno ou Místico lembrado por Gilbert Durand na sua obra “Estruturas Antropológicas do Imaginário”, dando este “Regime” o nome a um capítulo inteiro subdividido em vários. Um Regime, ou um estado apelativo, com intenções de permanência eterna, mas, ainda assim, demasiado acessível. Lembro a Confraria a que pertenceu Hieronymus Bosch, esse grande pintor e também visionário, cujo animal escolhido para a assinalar era um cisne que, estranhamente, acabava num prato, uma vez por ano, e comido pelos confrades numa celebração… estranho rito este, associado a este sereno animal, capaz de deslizar em ritmo permanente nas águas, símbolo de impermanência. A ambiguidade ritual é extrema, integrando o animal no corpo ao ser comido e, em simultâneo, uma espécie de “corte” com o símbolo, muito semelhante, aliás, ao “partir da cruz” de que foram acusados os Templários… talvez porque, até o próprio símbolo seja algo a transcender, tal como aquilo que o símbolo simboliza. Uma procura de liberdade total, indo para além da noite e do dia ou do crepúsculo, como símbolo apenas da verdadeira união entre sol e lua e não a união em si. Ou, dito doutro modo, a procura do Sinal (algo com apenas um sentido) mas actuante no mundo, por já ter percorrido a esfera da diversidade simbólica. Actividade só possível depois dessa viagem pelos e nos símbolos. É, então, uma obra que enuncia a complexidade iniciática e, ao mesmo tempo, anuncia uma saída do labirinto tão presente nas ramagens cobertas de múltiplas rosas ou sabedorias (e não só uma). Uma procura, portanto, da Unidade.
 
Certo é que a autora vê o que faz de um modo e que os observadores a verão de outros modos. Isso é certo e rico. No entanto, o acrescento de um texto é sempre bom numa época de “Imagens” praticamente mudas e sem grande significado: estamos rodeados de imagens, de manhã à noite, sem a sua dimensão da palavra (verdadeiro motor da imagem), porque provinda da Consciência. A Palavra tende para a Consciência e pode contrariar inconsciência ou subconsciência da Imagem.
 
Num encontro cuja proposta era a de se conversar sobre o Futuro e sobre a Tecnologia Moderna, o contraponto será sempre a Mão Humana, capaz de criar directamente a partir de uma matéria-prima e de falar sobre o Futuro, mas de uma outra maneira. De uma maneira mais artística, digamos assim.

Cynthia Guimarães Taveira

 

 

terça-feira, 12 de julho de 2016

A desordem inaparente da escrita




Há um provérbio judaico que diz que Deus criou o homem para que este lhe contasse histórias. Como se toda a criação do mesmo não lhe chegasse. Há na Criação, independentemente de esta ser queda ou não, uma ordem que se confunde com a matemática. Conhecendo a exactidão da matemática conhecer-se-ia a exactidão de Deus. O sustentáculo do mundo seria o número e o “jogo de dados”, (que Einstein não diz quantos são, nem os jogos, nem os dados) seria, para quem busca o conhecimento, o conforto da probabilidade e o leve esvoaçar do número como símbolo. As histórias seriam a desordem aparente de um mundo inteligente, mas fechado. Qualquer história de vida ou historieta principal seria arquétipal, ora inserida no grande enredo ora inserida no pequeno enredo que atravessa o drama teatral. De uma maneira ou de outra, viveríamos confortavelmente incrustados no drama da nossa presença. A comédia estraga tudo porque se ri do drama. A poesia invade como ondas a cidade fazendo-lhe tremer os alicerces. A profecia encarna o demónio da sabedoria e a graça o eterno problema do imprevisível e sobretudo da liberdade. O drama da nossa presença permite que haja comédia, poesia e graça.
A conversa com os deuses permite-nos perceber o nosso engano. O engano de não os sermos e o engano de os sermos. Os deuses são demasiados humanos… porque o poder é o antónimo de ser-se humano, pois este possuindo todos não possui nenhum.
A improbabilidade do sonho mais incongruente acontecer coloca em causa o jogo das probabilidades. Porque qualquer pessoa entende que não há sonhos improváveis e que a sua probabilidade de acontecer no real que se nos apresente é uma probabilidade. O acto criativo é por isso aquela probabilidade mais alta porque permite o improvável. Fora do acto criativo há o aprisionamento incondicional na matemática das histórias arquétipais, ou entendidas como tal. O “dispor” das formas que se nos apresentam e a sua permanente reorganização é apenas o lado externo do processo criativo, porque os deuses andam à solta para dentro e para fora de nós. A eternidade não é um cristal, até porque frio, só e  na escuridão do cosmos não serve para mais nada a não ser para existir. E o existencialismo é tão cansativo como a mais pura animalidade. Resume-se a uma entropia que mais tarde ou mais cedo expira.
O pressentimento da melodia, dirá Damásio, intuitivamente, resume a herança de luz que nos salvaguarda, não pelo acto imediato de identificação mas pelo acto de fusão;  identificação tem o seu quê de racional e de intencional, a fusão é irracional e sem intenção. A animalidade superior trata desta questão. O homem caminha para ser irracional e sem intenção, só assim se funde na consciência que falta aos animais. Só assim conhece. O leitor é o criativo por excelência:
“O leitor sabe que está consciente e sente que está em pleno acto de conhecer, porque o subtil relato imagético, que está agora a fluir na corrente dos seus pensamentos, manifesta o conhecimento de que o seu proto-si foi modificado por um objecto que agora mesmo se torna saliente na sua mente. O leitor sabe que existe porque, nesta narrativa, o leitor é o protagonista no acto de conhecer. O leitor eleva-se, transitória mas incessantemente, acima da água do conhecimento, sob a forma de organismo sentido, imparavelmente renovado a cada novo instante, graças a toda e qualquer coisa que afecta a sua máquina sensorial, vinda do exterior ou recordada na memória. O leitor sabe que existe e que está a ver esta página, porque a história da consciência narra um personagem, - o leitor – no acto de ver […] T.S. Elliot pode ter pensado em qualquer coisa de semelhante quando escreveu nos Quatro Quartetos, sobre uma música ouvida “tão profundamente que nem sequer é ouvida” e quando disse “tu és a música enquanto a música dura”. Pelo menos deve ter pensado no momento fugidio em que um conhecimento profundo emerge – uma união ou encarnação, tal como Eliot lhe chamou.” (Teresa Rita Marques - "Clave de Sol - Chave de sombra - Mamória e inquietude em David Mourão-Ferreira . Editora âncora, Lisboa, 2016, pag. 733)
As histórias que externamente contamos foram já escritas no jogo de escondidas, achadas e de novo perdidas no Jardim das Delícias. As histórias que internamente contamos estão todas por contar, situam-se na desordem inaparente da escrita. A mesma desordem que há no movimento fluente da luz, impossível de agarrar e, no entanto, jorra.
(Cynthia Guimarães Taveira)